Palavras à Milanesa

Palavras à Milanesa
Não! Este blog não é de gastronomia. Mas de palavras. À Milanesa. Palavras simples como este prato de arroz com feijão, bife e batata frita.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

TWITTES DE FERIADO

O tempo tempera a relação e a relação tempera o tempo. Com sal a gosto. O tempo não para. Agosto está pra chegar. A gosto de Deus, o maior dos cozinheiros!


A melhor hora do dia é a hora da poesia, da rima fácil, da rima rica! Da rima que rema remador. Da rima que fica, que não se explica! A rima do meu amor!


Vale a pena viver de novo, reviver, rever, ver. Esperar a esperança que se alcança com o futuro que chega de presente, passado a limpo!

terça-feira, 21 de junho de 2011

O INFERNO E O MENINO DO PIJAMA LISTRADO

No filme “O menino do pijama listrado”, que deriva do livro “O menino do pijama listrado”, que deriva da mente de John Boyne, o autor, que deriva da criação de Deus, Bruno é um garoto de 9 anos que se muda com a família de Berlim, na Alemanha, por conta do emprego do pai. A marca de Bruno é a ingenuidade de seus nove anos. Explorando os limites da sua vizinhança, ele descobre o Inferno bem ao lado de sua casa. É a visão do Holocausto pelos olhos gentis e meigos de uma criança, uma criança de 9 anos. A casa da família de Bruno, uma criança de 9 anos, era literalmente o quintal do Inferno; o quintal de um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. Seu pai era um oficial do exército alemão que respondia diretamente à Hitler. A mais pura materialização do Inferno na Terra, meus amigos.
Pois para Bruno, uma criança de 9 anos, era um refugio, um paraíso. Era no Inferno que ele ia passear e ali encontrava, do outro lado da cerca, o garoto Shmuel, um pequeno prisioneiro de guerra que estava sempre com seu pijama listrado. Na pureza peculiar de uma criança, que não enxerga lados diferentes como num confronto do tamanho de uma guerra, os dois meninos fizeram amizade, selaram seus destinos, suas vidas e suas mortes. O pai de Bruno, que era uma criança de 9 anos, o tal oficial do exército, este sim vivia no Inferno. Um Inferno particular criado por ele o no qual acabou se enredando. Mas se você não leu o livro ou viu o filme, parodiando Silvio Santos ao contrário, eu li o livro e vi o filme e afirmo. É bom! E pode deixar que não vou mais divagar nem detalhar outras passagens da história. Vale a pena ler e ver. Apesar de triste, a história é também muito bonita.
E como diria o Rudá, do Clube da Leitura, no seu conto “Lições de Arquitetura”, que foi o vencedor da última rodada, “o Inferno é uma grande mansão, repleta de quartos. Cada um deles tão pequeno quanto o Inferno é infinitamente vasto. E o tamanho do Inferno particular de cada um de nós é ditado pelos limites de nossa própria miséria”. Eu acho que o oficial nazista e pai do Bruno, uma criança de 9 anos, tinha certeza disso!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CORAZÓN LATINO

Yo pisaré las calles nuevamente.
En Buenos Aires todo se me ocurre de repente. Basta que yo camine.
Y voy caminando por la calle Caminito, donde te vi, preciosa.
En esta tarde, que, además, vi llover.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.
Aqui, en Argentina, Perú, Chile, Bolivia, Ecuador, Uruguay,
hasta donde yo pueda mi corazón llegar.
Yo vendo unos ojos negros.
Quien me los quiere comprar?
Mi Buenos Aires querido, te dejo mi corazón partido.
Vamos a bailar un tango, aún que sea el último, en Paris o en Belgrano.
Tanto que te quiero, tanto.
Volver a los diecisiete, a la negra Mercedes Sosa.
A la calle Corrientes, al tres cuatro ocho.
Soy pura sonrisa, se me aparecen los dientes de felicidad.
Cambia, todo cambia, así doy gracias a la vida, en verdad.
La misma vida que me a dado tantos tangos, amor, paz y mango.
Soy corazón fuerte, caliente, tengo la sangre buena y el alma serena.
Duerme negrito, que tu mama está en el campo.
Yo sigo viviendo, llevando adelante mi canto.
Mi bandera, mi destino, mi corazón latino!

MOVIMENTO

Neste grande jogo de xadrez cósmico não há nenhuma peça fora do lugar. O tabuleiro dá todas as chances pro jogo recomeçar. Se você esteve em algum lugar, era pra ficar. Para o bem o próximo e o próprio bem-estar.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

TERMÔMETRO

Eu grito, me assusto e não tem jeito. Constato, bato a mão no peito. Junho já está passando mesmo. É quase julho, segundo semestre. Segundo seu mestre, que mandou acelerar, e acelerou. Passado a limpo, o ano passado passou. E este caminha a passos largos pelo mesmo caminho. De presente, apenas um futuro melhor. É quase julho, eu disse, metade do ano. Hora de rever os planos, tirar os entulhos, se livrar dos enganos, dos engodos, dos esgotos! É quase julho, estou rouco!

sábado, 11 de junho de 2011

MEMÓRIAS

Credos, cadernos, retratos, lembranças, semblantes: anotações.
Vidas vividas bem mais adiante: corações.
No passo pensado passado a limpo: Ilusões.
O futuro, eu juro, há de navegar pelo mar: direções.
Sereias serão chamas que chamam xamãs: orações.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

EUCLIDES

Euclides escrevia bem, mas isso não bastava. Sabia escolher boas batatas na feira. Mas não bastava. Também plantava as batatas na horta que tinha no quintal dos fundos. Tinha conta no banco. Mas não tinha fundos.
Tinha casa com jardim nos fundos e bancos brancos perto das janelas, há muito sem pintar. Tanto que de brancos eles já não tinham nada ou quase nada.
Gostava dos índios, mas vivia entre os brancos. Euclides não era eu, eu juro. Era o próprio personagem com medo do futuro. Euclides tinha uma caneta. E a caneta, por definição, é uma arma. Mesmo que seja branca. Ela muda qualquer destino. Comete injustiças, desatinos. Mas também premia, dá frutos. Foi assim com Euclides, que morava no interior, num pequeno vilarejo.
Um belo dia, depois de rezar a Ave Maria, Euclides inclinou-se sobre o lago que corria no quintal de sua casa. Viu a si mesmo no reflexo e disse ali mesmo:
- Vai ser é agora que eu pego essa caneta e reescrevo a minha vida. E saiu navegando.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

AS BELAS TARDES DENTRO DA TOCA

Certamente as famosas tardes em Itapoã eram maravilhosas. E quem sou eu para desmentir duas figuras como Toquinho e Vinícius, que tanto exaltaram a praia de Salvador em sua música. Mas aquelas tardes dominicais na Toca do Vinícius também fizeram história e também são motivo de boas lembranças. Aquela “pequena Toquinha”, no coração de Ipanema, fez centenas, talvez já milhares de pessoas felizes naquele que era, antes, o dia mais chato da semana, o domingo pé de cachimbo. O dia de ficar em casa lendo jornal e botando o sono em dia.
Desde o nascimento da Toca, lá pelo meio da década de 90, os simpáticos shows programados pela família Afonso já levaram o público que lota a calçada ao delírio com shows artistas famosos como Carlos Lyra, Wagner Tiso, Victor Biglone, Os Cariocas, Tito Madi, Quarteto em Cy, entre tantos e tantos outros. Assim como também foi aberto precioso espaço para jovens de indiscutível talento como Kiko Furtado, ou mesmo outros jovens com indiscutível talento e de linhagem nobre como Kay Lyra e Philipe Baden Powell.
O público que já esteve lá teve o privilégio de ouvir música da melhor qualidade e, o que sem dúvida agrada a todos, totalmente de graça. É a democratização absoluta do banquinho e do violão. Literalmente, aliás, um casamento perfeito, pois o banquinho é levado pelo público e o violão, o piano de cauda, a bateria, trazida pelo artista ou mesmo oferecida pela Toca, no caso do piano de cauda. Pois, de fato, a família Afonso sempre se preocupou em oferecer aos visitantes este tipo de experiência sensorial do mais alto nível e com sentido absolutamente pedagógico e educativo. Para os mais interessados, há também uma bela, simpática e aconchegante lojinha, com CDs, livros, camisetas, tudo com motivos musicais. A lojinha, sempre pensei eu, serve como atividade meio, para sustentar a atividade fim, que seria a propagação da cultura musical brasileira.
Carlos Alberto Afonso, sua mulher Natalina, e seus filhos sempre tiveram e têm indiscutível zelo e atenção com aqueles que passam através da porta de vidro da Toca, interessados em mais se aculturar, pesquisar algum CD, DVD, em assistir a algum show ou mesmo trocar um dedo de prosa com o Carlos Alberto, sempre a postos.
No início de seu projeto pedagógico, ainda nos anos 90, talvez início dos 2000, Carlos Alberto programava os eventos para o segundo andar da Toca. Um tanto quanto pequeno, o local recebia apertadamente cerca de 30, no máximo 40 pessoas. Como era mágico subir aquelas escadas. Naquele pequeno espaço, os acordes que vinham eram sempre agradáveis e, melhor, estávamos, nós da plateia, a uma distância muito pequena uns dos outros e do artista também. Tudo isso favorecia a atmosfera acolhedora e calorosa do evento. Caloroso, aliás, também era o clima lá em cima.
Penso que por causa do tamanho e do calor, além de algum outro motivo particular, foi que o Carlos Alberto mudou já há algum tempo o local dos shows. Minha memória afetiva me faz lembrar de grandes shows ali na calçada e, em especial, uma apresentação do imenso, do enorme Tito Madi, amigo querido. O grande cantor, com voz de veludo, coração de menino e timbre para ouvidos privilegiados. Ele foi o centro de uma homenagem na Toca e ali reencontrou, na ocasião, após décadas, o maestro Georges Henri, uma das pessoas responsáveis pelo seu lançamento como cantor romântico. Foi emocionante!
Garoto e sem pressa de ir pra casa, lembro-me das tardes que ali ficava a pesquisar as estantes. Quantos maravilhosos livros, quanto conhecimento, quanta informação. Meu Deus, quantas maravilhas literárias esperavam a hora de, ávidas, pularem de lá para as mãos de alguém, como eu, que soubesse o que fazer com elas.
Além de pesquisar as estantes, outra pesquisa fazia-me muito bem. Nas conversas entre um cliente e outro, trocava ideias e discutia ações e iniciativas, sempre pedagógicas, com o Carlos Alberto. A mais recente deu-se por ocasião do aniversário do poetinha, que em 19 de outubro de 2000 faria 87 anos. Mais uma vez, o missionário e viniciólogo traria uma ideia interessante e instrutiva. Levar a poesia de Vinícius para toda a parte e nisso estava incluída a Escola Pública. Desta vez, no entanto, o destino era Marechal Hermes. No ano de 1999 fora no Arpoador, na Escola Castelnuovo. Pensei eu, na época, com meus botões: - Neste ano, andamos mais alguns quilômetros. Será sempre assim? A cada ano, a distância vai aumentar ?
Mas por outro lado, outra distância parece diminuir: entre o universo do aluno de escola pública e o de Vinícius de Moraes. Que distância mais percorrerá Carlos Alberto? Até onde levará Vinícius, a Bossa Nova e a boa música consigo? Viva a Arca de Noé e viva a João Gilberto que completa 80 anos no próximo dia 10 de junho, neste ano de 2011.

A PRINCESA, O PREFEITO E O BISPO

Numa bela manhã de céu azul, tudo azul, na Pedra Azul, no Espírito Santo, estiveram reunidos a princesa, o prefeito e o bispo, entre outras autoridades locais e súditos mortais, que ali se confraternizavam em nome de Deus, no dia de São José. Era um encontro de comadres onde as formalidades foram deixadas de lado a fim de que o respeitável público fosse sapecado de beijos e abraços. Bem ali na Pedra Azul, a mais de mil metros de altitude acima do nível do mar, região aprazível, todos que ali estavam cumpriam o ritual do beija mão e do beija-flor.
A gestão integrada do território integrou a todos. Acima de tudo, no sentido macro, estavam ali, simbolicamente, os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, que compõem a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Rio, o pai, estava em êxtase, era só sorrisos com seu rebento. Seu curso natural de água doce fluía a olhos vistos em direção às Minas mais Gerais do Planeta. E o Espírito Santo, com seu ar divino, integrava a todos no seu território de Domingos Martins. E assim transcorreu bela a bela manhã, entre palmas, um discurso e outro, além da assinatura de novos termos de cooperação técnica com nobres propósitos. Um viva à princesa, ao prefeito e ao bispo. Um viva à Pedra Azul!

domingo, 5 de junho de 2011

O MEIO, O AMBIENTE, O INTEIRO

Ver de verdade o meio ambiente por inteiro.
Sem lupa, lente de aumento, sem miopia, por fora e por dentro.
O sangue corre nas veias e nas plantas corre a seiva que fotossintetiza a luz do sol.
Deu à luz a mãe grávida natureza. Reza. Ora. Conhece a Deus.
Nas matas correm os animais, matam os animais.
Animais, os homens lavam as mãos. Acariciam e espetam. Rosas e espinhos sorriem graciosos.
E o remorso, e o remorso?
A vida na mata, a mata dentro da gente. A vida dentro da gente. Quem a mata ama não mata a vida nascente da água, das florestas, do que resta do que somos nós.
O meio ambiente somos nós. O meio, o ambiente, o inteiro somos nós.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

PEDRA 90

Chegou o dia. É 25 de maio, aniversário do Zé Maria. Noventa primaveras. Parece que foi ontem que o rapaz saiu de Uberaba em direção ao Leblon. Das Gerais para o Janeiro. Do público pro particular. Das Minas para o Rio. Pra Lagoa, para o mar. Etá marzão, sô! Um mineiro solteiro, solto, perdido no Rio, nos anos 30. Que estrago, vai um trago aí?
Mas que nada, sai da minha frente que eu quero passar. Zé Maria foi sujeito sério, operário em construção, tornou-se engenheiro civil, viu prédios, construiu. Foi polícia civil e, dizem, até, chefe do Carlos Éboli, que batiza o Instituto de Criminalística da cidade. Bom para o Éboli que recebeu a honraria. Mas que deve ter tido um dedo do Zé Maria, a se deve, de verdade. Foi dono de pedreira, ponta firme, pedra noventa. Cara de bravo e coração de manteiga.
Reza a lenda, reza a Ave Maria, reza Zé Maria. Católico praticante, amigo do padre Sérgio, da Nossa Senhora da Glória do Outeiro, que rezou missa no jazigo, já contei aqui. E se os últimos serão os primeiros, como candidato, Zé não foi muito longe, apesar dos santinhos, plataformas e panfletos. Mas pra quê se o sujeito já era o eleito na Visconde de Albuquerque? Ali reinava entre quatro mulheres: esposa e filhas. Depois vieram os genros, os netos. Nenhum deles predileto, todos diletos.
Hoje, Zé Maria já não tem mais a vida ativa que tinha. Tem Alzheimer e está sempre em companhia de alguém que, a seu lado, o auxilia nas tarefas do dia a dia. Nada mais justo pra quem só plantou amor e vive rodeado dele. Zé Maria passou bem o aniversário após um susto no hospital na semana anterior. Cantou parabéns, soprou vela ajudado pelos netos, nenhum deles prediletos, todos diletos, comeu bolo com salaminho, sorriu só um pouquinho e lembrou o nome dos convidados. É Zé Maria, feliz aniversário!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PREVISÃO

É quase junho, eu testemunho! O ano tá passando rápido, mas à prova de larápio que pensa roubar o tempo perdido. Achado, a vida é um achado. Um beijo estalado, chiclete menta, mel com melado. Coração aguenta. Frase feita: o que é meu está GUARDADO!

terça-feira, 24 de maio de 2011

TRINTA ANOS, TRÊS HORAS DA MANHÃ

É maio. Me chamo Roberto e estou aqui na sala batucando estas linhas no netbook já quase aos 40 anos, que completo em setembro. É madrugada. Perto de duas da manhã de algum dia 20, de quinta pra sexta-feira. De repente, minha mulher abre a porta e exclama, irritada: “Que vício, hein! E eu, irritado: - Que vício o quê? Ela jurava que eu estava no facebook, mas na verdade só batucava estas linhas, que aliás batuco ainda. Na televisão, estava começando o programa do Jô. Ele entrevistava o cartunista Laerte que contava sobre sua experiência como bissexual e sobre o hábito de vestir-se de mulher. A segunda entrevista era com a atriz Denise Fraga e o marido, Luiz Villaça, que estavam lá pra divulgar uma peça. Por fim, o terceiro entrevistado era um sujeito que lançava um livro.
Após divagar, volto ao propósito do texto. Estava na cama me revirando e sem sono, relembrando meus dez anos anteriores. Minha década mais recente começou em 2001, quando completei 30 anos. Morávamos na rua Aperana, no Leblon. Não havia filhos. Era um bom apartamento quarto e sala de uma amiga da minha mulher. Ponto excelente, final do Leblon, ao lado da praia e do burburinho do baixo. Tínhamos uma boa vida, chegamos a ter dois carros - um deles presente da minha falecida tia rica, dona de uma fábrica de pães – além de uma cachorrinha de uma famigerada ex-colega de faculdade, ex-sócia, e ex-amiga, que adotávamos durante finais de semana eventuais. Se não tínhamos dívidas, tínhamos muitas dúvidas.
Entre elas, a gravidez. Eu mesmo não queria muito na época. O primeiro filho, como seria? A primeira gravidez da minha mulher foi anembrionada. Fiz até uma crônica na época, "Um Pulinho na Terra". Foi duro! Minha mulher ficou grávida pela segunda vez por volta de outubro de 2001. Eu acabava de completar 30 anos. Ela 33. Sempre tive uma ligação muito forte com número três. Minha filha mais velha nasceu em julho de 2002, quando nós dois ainda tínhamos, por pouco tempo, as mesmas idades do início da gravidez. Foi uma alegria! A avó paterna não foi nos visitar no hospital. Castigo: hoje, a menina é a neta preferida.
Agora volto ao número três. Quando minha mulher e eu começamos a namorar, ela tinha 30 anos. Sempre gostei de mulheres de 30! Minha mãe quando se separou do meu pai tinha por volta de 30 anos. Não me lembro exatamente se tinha 29 ou 30, mas o 30 ficou no meu subconsciente. Quando nasci, meu pai tinha entre 29 e 30 anos. Também ficou no meu subconsciente. Foi aí, no se vira nos 30, que o nosso relógio biológico, meu e da minha mulher, começou a acertar os ponteiros. Ela queria ter filhos. No fundo eu também, mas não sabia.
O ano 2001 foi marcante. Dois mais um, novesfora 0 e olha aí o três novamente. Uma odisséia no espaço. Além de ser o ano do início da gravidez da minha filha mais velha, no espaço aéreo de Nova Iorque acontecia o atentado às torres gêmeas. Olha Nova Iorque aí também. Não tinha comentado antes aqui, mas meus pais namoraram, viveram e engrenaram o casamento deles em Nova Iorque. Assisti ao atentado, a partir do segundo avião que se chocou contras as torres, ao vivo pela TV. Parecia uma cena de filme, mas era real. E no Brasil é que já era o real desde 1994. O cônsul de Israel, soube mais tarde, morava em frente da minha casa. Logo em seguida ao atentado, uma patrulhinha da PM foi fazer plantão na frente da minha janela. Ficou lá por dias, talvez meses. Olha a globalização aí. Eram os efeitos do atentado afetando diretamente a minha janela. Dez anos depois e, quem diria, Inês é morta e Bin Laden também!
Se 2001 foi marcante, 2002 foi mais ainda. Como já disse, foi o ano que minha filha mais velha nasceu. Morávamos, de aluguel, numa casa de vila no Jardim Botânico e fomos, em seguida, para o Humaitá. No novo bairro, tivemos que apagar um incêndio. O apartamento, alugado, pegou fogo um dia após a mais velha completar um ano. Até então eu trabalhava como freelancer e não era como bombeiro. O aniversário da minha filha mais velha é 12 de julho. Um mais dois e olha o três novamente.
Eu comecei a trabalhar num organismo internacional da ONU pouco antes da minha filha nascer. Fiquei todo bobo. ONU? Que chique! Nossa vida mudou radicalmente. Tenho certeza de que o empurrão pra melhorar de condição veio da necessidade de criar e educar uma criança, no caso a mais velha. Passei quatro anos naquela agência da ONU. Quando a minha mulher engravidou pela segunda vez, eu ainda estava na tal agência. Meu filho mais novo nasceu em fevereiro de 2006 e quando ele tinha três meses, olha o três de novo, eu fui trabalhar numa empresa de telecom. Novo empurrão, no caso do mais novo! Passávamos, por necessidade, um período na casa da minha sogra, onde o guri nasceu, e depois fomos morar na Gávea – de novo o aluguel - no mesmo período em que mudei os rumos profissionais.
Quatro anos mais tarde, a história se repetiu. Mudei de emprego, tivemos o terceiro filho, mudamos de apartamento. Agora estou numa empresa que atua em várias frentes, entre elas petróleo e mineração. O nome da empresa tem três letras, a mesma quantidade de letras de “Rio”’, cidade onde ela investe bastante. Em 2014, temos a Copa do Mundo, em 2016, as Olimpíadas e o Rio vai bombar! Se bobear vem o quarto filho e uma nova mudança de emprego. Quem sabe nessa eu compro o sonhado apartamento. Mas agora são quase três da manhã e acordo às 6h pra levar a mais velha ao médico. Vou dormir só três horas. Hoje já é 20 de maio, amanhã 21, e temos o futuro pela frente. Boa noite!

terça-feira, 10 de maio de 2011

A FELICIDADE HÁ DE BATER À PORTA

Era segunda-feira e Fulano acordava. Ao abrir os olhos, lembra-se imediatamente do personagem central de um livro do Lourenço Mutarelli que agora lhe fugia da memória. Lembra bem do personagem mas o nome do livro nada.

Na história, Paulo é um analista de sistemas que desaparece junto de sua mulher e sua filha. Após um ano, ele retorna sem lembrar o que lhe aconteceu e muito menos sem saber o paradeiro das duas. Pra piorar a situação, o personagem diz à terapeuta não sentir a falta delas. A única coisa que sente é um cansaço extremo.

Ao lembrar-se do enredo do livro no seu sonho, Fulano entende perfeitamente a razão de seu mau humor. Era segunda-feira e ele acordava sentindo-se desorientado, assim como o personagem do livro.

- Aqui estou eu às ordens de mais uma semana capitalista. Ah, diacho!! Até ontem estava tudo bem. Prainha com a patroa, cinema com as crianças, ilusões, sonhos, fantasias... até sexuais, transa no final do dia....

Naquele entardecer de último dia do final de semana não havia contas a pagar. Afinal, era domingo, pé de cachimbo, malandro é o gato e tudo são flores.

- Eu sou apenas mais um rapaz latinoamericano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, sobrenomes e salamaleques - elocubrou.

Na sala do pequeno apartamento alugado de dois quartos e cheio de infiltrações, um porta-retrato com a foto imortalizada no dia do casamento, vinte anos passados, fazia Fulano lembrar-se de quem era.

- Sujeito homem, casado, barbado, pai de família, que às vezes vacila e na maioria acerta na mega sena, na mega sina. Super mega enrolado, mas boa gente. - classificou-se.

- Tá, tá bom, mas....voltando à vaca fria, quem sou eu? - indagou.

A correspondência do banco que chega por debaixo da porta e não perdoa, além do porta-retrato na sala do pequeno apartamento de dois quartos e cheio de infiltrações, é outro indício que o faz lembrar. Ele é aquele CPF, aquele FDP. É, filho da puta mesmo. Aquele nome no SERASA. Mais um na estatística. Mais um a responder o senso do IBGE.

Fulano era também mais um a jurar que fazia juras de amor eterno ao modelo vigente, mas sem juros, interesses e segundas intenções.

- É segunda-feira - se lembra de novo Fulano ainda deitado na cama sem forças pra levantar.

- É dia de botar o terno. Mesmo sendo eu sujeito carinhoso e terno, tô na selva, tô na briga. Tô na chuva pra me molhar - defendeu-se.

Fulano estava mesmo se sentindo um tremendo frango de padaria, desossado e duro. Mas ele é brasileiro e não desiste nunca.

- Apesar de você, como diria o Chico, amanhã há de ser outro dia. Hoje é segunda, amanhã é terça e a esperança é última que morre. O Paulo e o Lourenço Mutarelli que me perdoem, mas a felicidade há de bater na minha porta. Ah se vai!

SABADOS PARA TWITTER

Sábado de outono ativa o tonus muscular. A mente. Nada acontece de repente. É preciso plantar. Se cair, se levantar. O melhor acontece, ah!!


Sábado se sabe sabido e sabático. Tudo cabe no sábado. E dele que tudo emana. Infinitas possibilidades no melhor dia da semana!


Sábado de sol, lá pra se fazer um fá do. Sem dó, pra si be mol, be mim, sem ré pedir.

TESTAMENTO

Doença, miséria e fome.
E nisto tudo onde está a mão do homem?
Que consumo ele consome?
Pra quem sorri? O que come?
Por quem chora?
Será pelos mendigos abandonados e com frio na barriga ?

Quanta briga! Quanta briga!
E nisto tudo, a quem acaricia cheio de intolerância e malícia?
Por que praças caminha? de quem se avizinha?
e a quem aborda?
A quem canta parabéns? por quê tanto se apega a seus bens?
E se nada é de ninguém, estamos todos no mesmo barco.

Deixe a vida te levar. Mas não perca a direção.
Fixe um norte na mente. Plante uma semente. Deixe viver.
Dá um abraço, estende a mão.
Encontra um sentido maior. Pede desculpa.
Quem sabe você se encontra num ponto de ônibus à luz da lua.

Do mesmo lugar que você saiu.
Volta às origens, a quem te pariu.
E já que você é Homem, perdoa.
Doa, a quem doa.
E começa de novo!

domingo, 8 de maio de 2011

O QUINTAL E A VARANDINHA

Tenho me esforçado muito para que meus filhos tenham uma infância com boas lembranças na idade adulta e a um quintal, como eu tive. Peço a Deus que fique marcado em seus corações e mentes muito mais os passeios de domingo ao Jardim Botânico, as constantes idas ao Shopping da Gávea, o quintal do nosso apartamento, ou mesmo as inúmeras idas ao teatro, ao Oi Futuro, do que as vezes que já não posso mais contar com os dedos das duas mãos, em que, sem paciência, bati ou briguei com eles.
Infância é sagrada. E sagrado é também o direito de ter uma boa infância. Minha responsabilidade como pai é grande. Não me furto dela nem fujo da raia. Quero ser um pai presente que se orgulhe de ter construído uma relação sólida com os filhos. Falo isso hoje, quando as crianças estão pequenas ainda, mas escrevo também pensando em ler estas linhas daqui a 10 anos quando a infância de ambos, Clara e Francisco, já tiver passado, e eles forem ( serão) felizes adultos. Terei cumprido minha tarefa, meu objetivo?
Hoje, andando pelo Posto 6, em Copacabana, parece que passa um filme em minha cabeça e eu me vejo ali, naquele mesmo quarteirão, 25, 30 anos atrás. Foi na rua Raul Pompéia, nome de poeta e escritor vim a saber mais tarde, que eu literalmente descobri o mundo. Nasci numa casa em Ipanema e com um ano de idade mudamos para o Posto 6. Ali, fiquei até mais ou menos 1990, quando eu tinha por volta de 18 anos.
É, os primeiros 18 anos da vida de uma pessoa também marcam bastante. O sujeito passa pela infância, adolescência e finalmente chega à idade adulta. A primeira carteira de motorista, ah, a primeira namorada, primeiras tantas coisas..... “Sem querer fui me lembrar de uma rua e seus ramalhetes...”. Os versos da música do Tavito marcaram demais a minha infância, inicio de adolescência, e marcam até hoje. Tenho um carinho enorme por essa música e o Tavito nem sabe. Essa música me remete instantaneamente à minha infância.
No inicio de 1982 fui à Bolívia. Aquela viagem foi mágica. Eu já tinha ido à Bolívia uma vez pra visitar meus avós, mas era muito pequeno, tinha cerca de 3 ou 4 anos. Mas da segunda vez, eu já tinha 10 anos. É, 10 anos! Foi lá que eu soube, pelo rádio, que a Elis Regina tinha morrido. Foi um baque pra mim. Talvez o primeiro da minha vida. Eu tinha 10 anos e não tinha noção da importância dela na música brasileira. Mas alguma coisa dentro de mim me dizia que era uma grande perda. Hoje eu vejo pelo You Tube as imagens do velório dela e fico imaginando. Pôxa, eu soube pelo rádio que a Elis morreu, não estava no velório dela mas hoje tenho a oportunidade de me transportar pr’aquela situação. Que coisa fantástica a tecnologia!

Mas voltando à Bolívia, eu quero muito levar meus filhos lá, sabe. Quero que eles saibam que as nossas origens estão na Bolívia, tanto quanto estão no Rio, São Paulo, Minas ou Portugal, quanto também estão no Rio Grande do Sul, Uruguai, Minas também, etc, pelo lado da mãe deles. Aliás, eu quero levar os meus filhos a todos estes lugares e a outros mais. Quero levá-los a Nova Iorque. Costumo dizer, pra mim mesmo, que é de lá que eu venho. Foi lá que meus pais namoraram e depois vieram a se casar no Rio de Janeiro. O casamento, é bem verdade, não deu lá muito certo. Mas gerou este ser que está aqui agora escrevendo estas memórias. Mas sabe de uma coisa? Não estou aí se o casamento não deu certo. É preciso respeitar o livre arbítrio de cada um, seja quem for. Não era pra ser, pronto. Foi na Raul Pompéia que meus pais se separaram. Eu fiquei muito triste quando isso aconteceu, mas como acabei de escrever, agora já passou. Tudo passa e o melhor sempre acontece.
Incluída aí a viagem à Bolívia já citada, em 1982, os anos 80 foram muito marcantes pra mim. Foi um período de transição. Logo no início dos anos 80, no final de 1981 eu troquei de colégio. Troquei por que repeti o ano. No Cruzeiro, deixei grandes amigos. Os primeiros que fizera na minha vida. Particularmente cito dois deles, Leonardo Marotte e Renato Marchon, e suas famílias. Não fazíamos nada separados. Desde a natação até os finais de semana em Friburgo, Vassouras ou Arraial do Cabo.
Particularmente, lembro de uma ocasião em que estávamos dormindo na casa de Arraial dos Marchon que foi invadida durante a madrugada. Os assaltantes rondaram a casa mas não entraram. Apesar de meu irmão afirmar e apostar que, sim, eles entrarão, eu não me lembro disso. Em outra ocasião, estávamos todos nós, os amigos inseparáveis e suas famílias em Friburgo, na casa dos Marotte. De repente um de nós entrou no corcel azul da família do Renato, estacionado no quintal, e soltou o freio de mão. O carro desceu terreno abaixo. Foi um milagre que não havia nenhuma criança na frente do carro. Era um abraço!
Mudei então de um colégio alemão, o Cruzeiro, no centro da cidade, para outro na beira da praia do Arpoador, o Isa Prates. Ali nos fundos do colégio, aliás, que nasceu o Circo Voador que migraria pra Lapa pouco depois. Foi uma transição difícil. Sai de um colégio com padrão mais rígido, alemão, para outro um pouco mais flexível, que tinha mais força nas matérias de humanas, apostava nas aulas de teatro e nos campeonatos intercolegiais.
Ao invés de acordar às 6h da manhã e me apressar pra pegar a condução do Cruzeiro, que fazia um verdadeiro tour pela zona sul pra buscar todos os alunos e levá-los a fim de que estivessem às 7h30min em sala de aula, eu passei a poder acordar um pouco mais tarde e ir a pé pra escola. Eram os anos 80, meus amigos, e não havia nem sombra dessa violência toda com a qual a gente convive hoje.
No caminho da escola, mais ou menos na esquina da Bulhões de Carvalho com a Francisco Otaviano, nos tínhamos encontros eventuais e regulares com um tal de Doidão. Doidão era um pivete, um pivetinho. Uma espécie de Zé Pequeno do filme “Cidade de Deus’, guardadas as devidíssimas proporções e fazendo as devidas distinções. Doidão metia medo na gente, acho que com um pequeno canivete, e nos levava, de mim e de meus amigos, pequenos adereços da época como relógios water proof, entre outros. Nunca me encostou a mão. Eram outros tempos, cavalheiros. Até os assaltantes tinham mais classe. Por onde andará você, Doidão?
Na Raul Pompéia morávamos num apartamento térreo. Era como se fosse uma casa, pois tínhamos um quintal inteiro pra nós. Ali jogávamos futebol, ping pong, entre outras brincadeiras de criança. Mas nem tudo eram flores no quintal. Também havia ratos, que subiam para o apartamento. Desde cedo, convivi com ratos em nossos quartos e pela sala. Mas no final das contas era divertido sair perseguindo os ratos com cabo de vassoura. Pobre de mim que matava os ratos na infância e hoje não posso matar os ratos da política e da corrupção.
Já adulto e morando no Leblon, soube, com frustração, que o condomínio do Edifício São José – este era o nome do edifício - nos tomara o quintal do apartamento de propriedade da minha família, que hoje está alugado para ilustres desconhecidos que não sabem da missa a metade e não têm ideia do que passei naquele apartamento. Tínhamos três quartos e espaço de sobra. Meus filhos teriam gostado do quintal que tínhamos. Hoje eles têm um espaço mínimo apertado entre um quarto e outro, carinhosamente chamado por eles de “varandinha”. São outros tempos, alguém irá dizer. Mas todos deveriam ter direito a um quintal como eu tive!
Adaptado ao Isa Prates, em 1983, com 11 pra 12 anos, eu começara a fazer outras amizades. Particularmente cito o Alessandro ( Kiko) Meirelles, o Guilherme Araújo e o Eduardo Frota. Foi com estes grandes amigos que comecei a jogar botão. Fazíamos campeonatos e disputávamos os melhores times. Foi nesta época que ganhei uma mesa de ping pong de aniversário. Com uma mesa no quintal, eu passei a treinar bastante. Kiko, Duda, Guilherme e eu fazíamos campeonatos de duplas. Eu dormia muito na casa do Kiko. Foi lá, no dia 21 de abril de 1985, que eu assisti na televisão a notícia da morte do Tancredo Neves. Outro baque. O Kiko também tinha uma cachorrinha, a Monique. Por onde andará você, Monique? Apesar de eu ter um belo quintal, o futebol só tinha graça na casa Duda, que ficava na Sá Ferreira. Jogávamos no térreo, num espaço que até hoje não sei definir se era um play ou algo semelhante. Uma rua depois, na Souza Lima, era a casa do Guilherme. Foi lá que vi pela primeira vez alguém tocar guitarra. Ele mesmo, o Guilherme. E foi neste intercâmbio de casas e atividades que os anos 80 se passaram pra mim. Espero e peço a Deus que meus filhos tenham direito a, como na música, uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela pra ver o sol nascer. Um belo quintal onde possam plantar seus sonhos e deixar sementes de amor. Filhos, papai ama vocês!

domingo, 1 de maio de 2011

UNO

Uma folha em branco me espera. Respiro fundo. Escriba que sou, escrevo. Escravo, a moda antiga, cravo a caneta no papel ou os dedos no teclado. Dedilho um violão. Violo os sentidos. Ao lado, uma planta me olha. Me sapeca um sorriso. Me pede água. Eu dou. Entre nós, a planta e eu, fazemos linguagem dos sinais.
Sina? É a minha de escrever, cravar, cavar a palavra, apalavrar. A pá levar ao pé da serra. Me erra! Mas eu me convenço. Venço a batalha com a caneta, com o teclado. De mim sai um personagem inspirado. Ao meu lado, além da planta, apenas eu. O uno é igual ao todo!

É MAIO!

É maio! É meu! É nosso!
A esperança das noivas, o carinho nas mães. A vida na palma das mãos.
Os irmãos da estação, a próxima parada.
Não é nada, não é nada!
Mas é maio.
O sol, o outono, o calor ameno.
Sem temporais, sem dilúvios, sem enchentes!
A vida pulsa! A vida é:
Gente passeando na rua, sem suor, sem camisa, só na brisa.
Vai embora dengue, é maio!
Não tem febre, não tem desmaio.
Não tem pra ninguém. É maio!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

FESTA NO JAZIGO

Um dia ideal na vida de José Maria Azedinho


José Maria Azedinho tinha 80 anos e há não muito tempo havia perdido
seu pai, que chegou quase aos 100 anos e morreu de causas naturais.
Azedinho era um doce de pessoa, gostava de construir prédios e
acompanhava suas obras se deslocando pra lá e pra cá, dirigindo o seu
próprio carro. Tinha uma bela família, esposa, três filhas, três
genros e três netos. Foi pai mais tarde e avô tardio também.
Era sujeito realizado, católico praticante, bom conselheiro e gostava
de discutir política. Chegou a candidatar-se numa ocasião ao cargo de
vereador na cidade onde vivia, no interior de Minas. Pobre homem,
era muito honesto, também muito crédulo e um sonhador: não foi
eleito.
E foi numa noite dessas que o sonhador teve um sonho, após largar na
cabeceira seu livro preferido, “ Nove Estórias”, do escritor americano
J. D. Salinger, para entregar-se ao sono. Zé Maria interrompeu sua
leitura exatamente quando acabara de ler o conto “Um dia ideal para os
peixe- bananas”. Como bem sabem os apreciadores de Salinger , o conto
acaba em morte.
No dia seguinte, Zé Maria acordou intrigado e associou o final do
conto com um dos sonhos que tivera durante a noite. Ele via seu velho
pai, Luiz Gonzaga, que na Terra era professor de matemática e no Além
continuava a exercer o tal ofício. O pai estava bem, mas parecia quer
dizer algo. Tão claro como dois e dois são quatro, Azedinho
revestiu-se de uma certeza.
- Preciso mandar reformar o jazigo da família. Pintar, lustrar, limpar
e fazer uma bela missa de reinauguração, com direito a padre, reza,
terço e bênção. Assim, meu pai se sentirá melhor – interpretou.
Foi então que Azedinho, super animadinho, começou a mexer seus
pauzinhos como há muito não mexia. Mandou chamar seu Dias de Pinto,
capataz de suas obras, que lhe fazia serviços particulares havia anos,
entre os quais cuidava da conservação do jazigo da família.
Seu Pinto, de sobrenome consagrador, só não consagrava mais a esposa,
Raimunda. Todas as noites, esperançosa, Raimunda
aprontava o jantar e preparava-se como sobremesa a seu ver apetitosa
para os apetites satisfeitos do marido voraz que durante as noites
pintava jazigos, cometia adultérios e despautérios!
Raimunda, depauperada, coitada, só murmurava:
- Vem Pinto, vem. Vem fazer coelhinho na vagava. E o Pinto, manso, nada.
- Mas que nada, sai da minha frente que eu quero passar. O cemitério
tá animado, hoje eu quero é ir pra lá – parodiou Benjor.
E assim, todas as noites, no período em que pintou o jazigo, seu Pinto
saía de casa no horário nobre da novela, deixava sua esposa no jardim
da saudade e dirigia-se ao cemitério para terminar o “silviço”.
Enquanto isso, seu Zé Maria, sem saber da missa a metade, era pura
ansiedade do outro lado da cidade.
Mas num belo raiar de dia, contados sete, de trabalhos intensos e
folia, seu Dias adentra a casa de Zé Maria, trazendo a novidade:
- Alegria, alegria, seu Zé Maria. É hora da Ave Maria, o jazigo se
anuncia. Chega de melancolia. Pode chamar a família e mandar convite à
freguesia.
Zé Maria, que não cabia em si de felicidade, mandou chamar a
secretária à sua presença.
- Bença padrinho - disse Florisbela, que tinha coxasbelas e era
afilhada sua. - Como posso lhe ajudar?
- Quero que você prepare um mailing e envie convites para o prefeito,
bom sujeito, demais autoridades, amigos e família. Não se trata de
pleito, mas será um big evento!
- Padrinho, mail..o quê? Pleito?
Florisbela era bela, esforçada, e cheia de boas intenções, mas às
vezes dava mancadas.
Zé Maria, certo de que o entendimento ia piorar, afinal diria
palavras mais difíceis, como “jazigo”, respirou fundo, contou até dez,
e entoou um mantra mentalmente:
- Minha filha, preciso que você mande convites para a inauguração do
jazigo da família.
Florisbela acionou a tecla sap, jogou o cabelo pro lado, engatou a
primeira e foi-se. Dois dias depois, toda a cidade já sabia da
novidade.
Era dia de festa, dois de novembro, feriado de Finados. A cidade
reuniu-se em peso. Do prefeito à Raimunda, esposa de seu Dias, todos
extasiados.
- Onde já se viu? Inauguração de um jazigo só mesmo no Brasil! E já
que estou aqui, vou fazer um discurso – bradou o prefeito, bom
sujeito.
Zé Maria, aflito, pra não botar água no chopp, deixou o prefeito fazer
as honras, mas disse solene:
- Meu dileto prefeito, bom sujeito: pra não quebrar o decoro, tens
direito ao discurso, mas avisa a teus eleitores que nem tudo na vida
são flores, que neste jazigo mando eu e tenho dito.
Nesta hora, pra por fim à cerimônia e dar o veredicto, chega o padre,
apressadinho e atrasadinho. Em nome da Santa Igreja Católica, o padre
foi atender ao chamado e ganhar uns caraminguás.
- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo declaro inaugurado o
jazigo Azedinho, que serve de morada para os corpos que aqui
descansam.
Finalizando, leu a frase na lápide:

- Nós que aqui estamos por vós esperamos.

Ouvem-se fogos de artifícios e música eletrônica a todo volume.

domingo, 24 de abril de 2011

A SAÚDE E A FORTUNA

Entramos no quiosque de flores. Sugiro às crianças que levem para a avó alguma flor que simbolize saúde. A mais próxima sugerida pela atendente é a fortuna.

- Papai, por que essa flor se chama fortuna? A primeira pessoa que comprou ela ficou rica?
- Filhinha, papai não sabe. Vamos pesquisar na internet?
- Tá bom, papai.

Havíamos acabado de comprar um vaso cheio de fortunas e outro de begônias para a avó dos meus filhos, que se tratava de um câncer e estava hospitalizada, quando Clara, de 8 anos e meio, fez a pergunta sobre o nome da flor da fortuna. Era domingo de Páscoa. Pouco antes, ainda no quiosque, uma senhora que declarou-se avó também, se encantou com o gesto e o carinho demonstrado pelas crianças, interessadas que estavam em escolher bonitas flores para a avozinha.

- Estão levando as flores para sua mãe? – perguntou, curiosa.
- Não! É pra nossa avó que está doente no hospital – disseram os dois, quase como se tivessem combinado a resposta.
- Nota-se que vocês são crianças muito bem educadas. Parabéns! – retrucou a senhora.

Ao me perceber diretamente elogiado, eu, que ainda estava me sentindo culpado por ter brigado e perdido a paciência com os dois, pouco antes, em casa, pensei imediatamente com meus botões:

- Essa senhora não sabe de nada. Elogio pra mim? Eu mereço? Bem educados? Acabo de perder a cabeça com meus filhos e olha só o resultado. Mas em minha defesa rapidamente também pensei: - Amor também se planta, se semeia, aqui estou eu tentando equilibrar o jogo.

Chegamos à clínica e o resultado não poderia ter sido outro. A avó se encantou com o presente e com os cartões das crianças. A voz ficou embargada. Naquela posição de fragilidade, não perdeu o rebolado nem mesmo quando uma das crianças perguntou o que era o zigue zague que ela tinha no rosto.

- Zigue zague??? Espantaram-se os adultos ao lado, para em seguida concluírem que poderia ser uma referência às rugas da avó.

Criança não se aperta de jeito nenhum, pensei. Se não sabem nominar o que querem dizer, imediatamente inventam a palavra e são entendidas. Ai dos pais se não entendem.

Após o comentário, ganharam seus ovinhos da vovó e saíram, felizes, alma leve e lavada, para o almoço de Páscoa!


Resultado da história da fortuna: dinheiro não nasce em árvore mas amor nasce. As crianças acabam de provar isso.


Em tempo: Fui à internet e pesquisei. Diz a wikipedia: A flor-da-fortuna (Kalanchoe blossfeldiana) pertence à família das crassuláceas, originária da África. Possui folhas suculentas sendo resistente ao calor e a pouca água. Os tons desta linda flor, variam entre vermelho, alaranjado, amarelo, rosa, lilás e branco. Abre parênteses: a fortuna escolhida pela Clara era amarelinha. Geralmente alcança uma altura máxima de 30 cm e se adapta a um solo solto bem drenado e fértil. Os locais indicados para o cultivo são lugares bem iluminados (varandas e jardins), pois a planta é bastante resistente. As folhas e as flores não devem ser molhadas, porque podem apodrecer.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

ÓCULOS

Esta noite sonhei que havia trocado de óculos. Sou portador do adereço há muitos anos, desde pequeno. Quando descobri a vida, já foi com uma visão míope dela. Ainda assim, caminhei, caminhei procurando agulhas no palheiro. Mesmo de óculos não as achava. Tudo bem, fiquei pensando que durante todo este tempo eu, de fato, usava óculos. Ora, mas algo me impedia de ver a vida com a plenitude de suas cores e sinais. Talvez fosse o diagnóstico de quantos graus eu tinha. É.... talvez fosse. O fato é que esta noite, através do sonho, me dei conta de tudo. Estava usando um óculos não conforme. Bingo. Uma vez tendo me dado conta disso, a partir de hoje sou outra pessoa. Uma pessoa com óculos de acordo. Com óculos no grau e no padrão certos. Padrão certo? Ah tá bom, e por acaso existe padrão certo? Por acaso alguém aí muda da noite pro dia? Tudo é processo. A vida é um conjunto de processos, um conjunto de situações e experiências. A nós cabe filtrar o melhor de cada experiência apreender e aprender. Por meio do que vivemos, evoluir e crescer. É isso! Amanhã mesmo vou ao oculista!

terça-feira, 12 de abril de 2011

SEGUNDA-FEIRA

Hoje, quando abri os olhos, entendi perfeitamente a razão do meu mau humor. Atende pelo nome de segunda e o sobrenome de feira. Não necessariamente nesta mesma ordem, vá lá! Segunda-feira e eu estou às ordens de mais uma semana capitalista. Ah, diacho!! Até ontem estava tudo bem. Prainha com a patroa, cinema com as crianças, ilusões, sonhos, fantasias, até sexuais, transa no final do dia... Alegria, alegria, bradou Caetano, diretamente de algum exílio.
Naquele entardecer de final de semana não havia contas a pagar. Afinal, era domingo, pé de cachimbo. Malandro é o gato e tudo são flores! Eu sou apenas mais um rapaz latino americano, sem dinheiro no bolso, sem sobrenomes e salamaleques. Na sala do pequeno apartamento de dois quartos um porta-retrato me faz lembrar quem sou. Sujeito homem, casado, barbado, pai de família, às vezes vacila e na maioria acerta (pelo menos tenta) na mega sena, na mega sina. Super mega enrolado, mas boa gente.
Tá bom, mas....voltando à vaca fria, quem sou eu? A correspondência do banco que chega por debaixo da porta e não perdoa logo me faz lembrar. Sou aquele CPF. Aquele FDP. Mais um na estatística. Mais um no borderô. Mais um que juro faz juras de amor eterno ao modelo vigente mas sem juros e interesses. Segunda-feira, dia de botar o terno. Mesmo sendo eu sujeito carinhoso, terno, tô na selva, tô na briga. Tô na chuva pra me molhar, pra me melhor. Tremendo frango de padaria, desossado e duro.
Tá bem, mas agora é tarde. Vou dormir. Pra você aí que está se dando ao trabalho de me ler, vou “deslogar” do facebook e dormir o sono dos justos. Sonhar não custa nada. No meu banco, da praça aqui em frente, eu não devo. Apenas deito e durmo. Amanhã é mais um dia. Daqui a pouco é domingo e de novo segunda-feira. Não tem jeito. O melhor é viver e ser feliz!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Antes que eles cresçam

Affonso Romano de Sant'Anna


Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Segundo Tempo

A vida começa!
Aos 40, a caravana chega.
O rosto "enjuvenesce".
O que passou......esquece.
Agora, a vida começa. Essa.
A outra já foi.
Já é!
A cara passa em revista, a carapuça.
Veste?
A cara pulsa. O sangue corre.
Vira a folha do livro.
Deus te livro! Te socorre.
A página em branco é sua.
Sua e consegue.
São 45 minutos do segundo tempo pra você vencer!

O Vinho

O vinho, que era branco, enviúva da uva.
Quem vai salvá-lo?
Aqui na sala, sou eu quem falo.
Quando bebo, me calo.
Não tem jeito.
Remediado está.
O melhor acontece, deixa estar.
Deixa na sala de estar.

QUANDO ABRIL CHEGAR

Aos ventos, eventos mil.
Que não voltem as chuvas de abril.
Se voltarem que não tragam tragédias.
Que tragédias não nos traguem.
Em plena juventude, em pleno brilho.
No auge do processo criativo.
Que se chama vida.
Que se chama fogo!
E queima e arde!
Invade e arrebenta
Arrebata! Abril? Fechou.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Falta Que Ela Nos Faz

Durante um mês fiquei sozinho com meus dois filhos. Minha mulher, que é professora de italiano, além de atriz, viajou à Itália a fim de fazer um curso de atualização para professores de italiano.
O período que passei com meus filhos, sem a mãe, foi muito rico. Participei mais ativamente da rotina deles. Diariamente, com apoio da empregada e dentro do possível, ajudava nas tarefas escolares, verificação das agendas, uniformes, lanches, etc. Tudo isso à distância. Tudo isso muito perto. Indiscutivelmente, fiquei mais próximo deles.
Todas as noites, quando eu chegava do trabalho, eles já estavam jantados, banhos tomados, e ansiosos, me esperando. Ansiosos, em parte, pela carência que a ausência da mãe desperta, e por outro lado, ansiosos pela chegada do pai.
A saudade da mãe foi grande. As crianças choraram algumas vezes. Clara, de 9 anos, a mais velha, principalmente. Francisco, de 5, também muito apegado à mãe, levou a situação na maciota.
Para matar as saudades da mãe as crianças faziam teatro pra me apresentar ou confeccionavam com papel, pilot, tesoura e adereços, pequenos e singelos presentes, desenhos e declarações para mãe.
Para dormir, invariavelmente e com a nossa cama vazia, eu migrava para um colchonete estrategicamente colocado no chão e ao lado da bicama das crianças. Tudo, regado às boas companhias da Clara e do Fran, que, após uma historinha qualquer, dormiam como anjinhos embalados pelo ar condicionado a pleno vapor, sem o qual a nossa saudade da mãe e da mulher acabaria por esvair-se em suor.